Os impactos da pandemia de covid-19 na educação no Brasil

A pandemia de covid-19 chegou ao Brasil, e está causando inúmeros problemas na saúde pública. O excesso de pacientes infectados já estão ocupando 91% dos leitos de UTI na cidade de São Paulo, obrigando assim, o estado a criar novas condições e formas de atendimento para suprir a demanda.

E a educação, como ficou após o início da pandemia? Houve a necessidade de adaptação? O aprendizado dos alunos será prejudicado? O que as escolas deverão fazer para suprir a falta da aula presencial?

Para responder estas perguntas, convidados para esta entrevista o Professor Noboru Ito Júnior (Professor de Pós, Consultor Educacional, Psicomotricidade, Desenvolvimento Infantil e problemas de aprendizagem).

Quais os maiores problemas que enfrentamos na educação na atualidade?

Professor Noboru: A Educação, como na maioria dos setores da sociedade, está em processo de adaptação frente ao isolamento social. O processo de ensino e aprendizagem sempre foi muito focado na relação direta e presencial de professor/aluno, e essa empatia, sempre foi um dos fatores essenciais para o aprender. Os maiores desafios estão no processo de comunicação e viabilização da aprendizagem aos alunos em isolamento. Assim, podemos dividir os desafios em três sujeitos: Instituição Educacional: como capacitar os professores? Como adequar os conteúdos? Como disponibilizar os conteúdos? Como mensurar a aprendizagem? Professores: o que colocar no planejamento? Como adequar os conteúdos? Como transmitir o planejado aos alunos? E os pais: como auxiliar a criança no processo de aprendizagem? Como conter a ansiedade sobre os objetivos da aprendizagem? Como organizar uma rotina de estudo da criança com o trabalho?

Comparando o nosso ensino com o ensino em países desenvolvidos como a França por exemplo, que o aluno aprende pelo menos 3 idiomas na escola pública, na sua opinião, qual rumo devemos tomar pra chegar neste nível?

Professor Noboru: Devemos entender que Educação é um processo, portanto, a melhoria da qualidade desse serviço se dará de forma gradativa e de médio a longo prazo. Acredito que um dos pilares para melhorar esse serviço é a formação continuada dos profissionais da Educação, fundamentada em evidências científicas e de viabilidade prática. Ainda, há a necessidade de capacitar os gestores educacionais da Educação Pública que hoje atuam, criar parâmetros para a seleção de gestores educacionais com o intuito de uma equipe técnica qualificada e líderes legítimos e legitimados. A educação pública necessita ser bem gerida, e mesmo sendo utópico, a influência política em sua gestão educacional merece ser revista e minimizada. Apenas, com muito trabalho, um plano educacional baseado em evidências científicas e profissionais com objetivos alinhados que integrem os alunos e as realidades sociais poderemos avançar para uma Educação sonhada.

Prof. Noboru Ito Júnior

Cobramos constantemente as devidas autoridades por melhorias na nossa educação e de nossos filhos. Existe alguma forma em que nós (a população em geral) pudéssemos ajudar para este crescimento?

Professor Noboru: A participação da sociedade é de extrema importância para a Educação, os pais precisam confiar na Instituição de ensino que seu filho frequenta, e para isso, precisa conhecer os sujeitos e o funcionamento dessa instituição. A participação em reuniões, eventos, conversar com a equipe gestora da escola faz com que os responsáveis entendam os desafios no processo ensino aprendizagem. E a escola, tendo pais participativos consegue direcionar os conteúdos para a realidade daquele aluno e da comunidade. Uma escola aberta e integrativa é um dos principais caminhos para um desenvolvimento integral e de qualidade da criança.

Juntando estes esforços, em quanto tempo conseguiríamos ver os resultados?

Professor Noboru: Um processo de gestão de eficiência e a capacitação é um processo que terá resultados de médio a longo prazo na educação. Porém, a integração e interação da sociedade com a escola traz resultados satisfatórios e rápidos. O desenvolvimento de um canal comunicativo aberto e eficiente, minimiza problemas e otimiza o processo de ensino aprendizagem. Quando nós puxamos em nossa memória onde estudamos quando crianças, geralmente nos referimos a “minha escola”, muito importante que o aluno e a família se sintam parte dessa instituição.

Neste momento de pandemia, não temos como não falar do prejuízo que a educação terá neste ano. Você conseguiria dimensionar o impacto da pandemia positiva ou negativamente?

Professor Noboru:Prejuízo teremos, por isso temos que acertar as expectativas, tanto os pais quanto a equipe de professores e gestores. Por mais que haja um grande esforço entre as partes nesse processo de aprendizagem, perdas irão ter, nosso objetivo enquanto professores e pais é minimizar essas consequências negativas e principalmente manter o aluno bem. Estamos vendo um aumento de crianças agitadas, tristes e ansiosas nesse isolamento, e entender esse sentimento é um dos objetivos de todos que trabalham com as crianças. O ensino remoto, não substitui o ambiente escolar, que é facilitador da aprendizagem e do contato humano por fundamento. Pais não são professores e a interação com o outro também é essencial no processo de aprendizagem, por isso, nós profissionais da Educação precisamos já pensar o que faremos quando tudo isso passar. O aspecto positivo, é que estamos aprendendo ir além do ensino papel e caneta, novas metodologias estão sendo aplicadas, a Educação está se reinventando dia a dia. É um aprendizado para as instituições Educacionais que precisam se modernizar e evoluir.

As crianças do ensino fundamental 1 e 2 também estão sendo submetidas ao ensino a distância, você acha que nesta faixa etária elas conseguirão cumprir com o aprendizado proposto, como se estivessem em aula presencial?

Professor Noboru: Os conteúdos e o processo de assimilação antes planejados precisam ser revistos, adaptação é a palavra nesse momento, a criança no Ensino Fundamental aprende muito com os pares da sua idade, o isolamento prejudica até a motivação dessa criança para o estudo. Devemos priorizar a saúde desse aluno e passar conteúdos que realmente possam ser aprendidos e vivenciados. Nem sempre o excesso de atividades enviadas irá ao encontro dos objetivos, precisamos de planejamentos coerentes e aplicáveis nessa fase em que vivemos, sem sobrecarregar família e alunos.

Na sua opinião, como poderíamos trabalhar com estas crianças de uma forma que o impacto negativo do ensino a distância fosse minimizado?

Professor Noboru: Tenho visto diversos trabalhos de excelência a distância (até mesmo grandes evoluções), para isso, o professor tem que entender seu aluno e a rotina de casa, para propor atividades significativas nesse momento, o trabalho do ser integral é de grande importância também, entender as questões ambientais e emocionais. Compartilhar atividades que a criança aprenda de forma prazerosa, podemos explorar muito os recursos audiovisuais, sempre contextualizadas as características das crianças.

Nossas escolas públicas e particulares estão preparadas para uma adaptação tão rápida nesta questão do ensino on-line?

Professor Noboru: Definitivamente não, estamos nos reinventando e aprendendo dentro do processo. Desafios estão sendo enfrentados tanto pelas instituições públicas e particulares, observo que a grande maioria dos profissionais da educação estão trabalhando muito mais que antes do isolamento e estão empenhados em ajudar seus alunos. O sentimento de solidariedade e de cooperação têm tomado conta de todos os educadores, observo o crescimento de grupos de trocas de atividades, compartilhamento de informações, que deu certo ou errado e assim estamos aprendendo a reaprendendo a ensinar.