Impactos da pandemia da covid-19 no setor transportador Brasileiro

A pandemia da covid-19 atinge os transportadores brasileiros em uma situação de extrema fragilidade e terá efeitos sem precedentes históricos para o setor. No que se refere a faturamento, nível de emprego e viabilidade de continuidade de atividade das empresas, as perspectivas são extremamente pessimistas.

Os impactos negativos no transporte, de magnitude ainda não mensurável, atingem os segmentos de cargas e de passageiros de formas distintas, mas, inquestionavelmente, comprometerão a atividade transportadora. Serão atingidas, também, todas as atividades que dela dependem, gerando efeitos diretos na vida da sociedade brasileira por tempo ainda indeterminado, seja durante a quarentena, seja no período de recomposição da atividade econômica depois dela.

Cabe relembrar que, ao final de 2019, o setor transportador ainda não havia se recuperado das perdas registradas na recessão econômica brasileira. Isso porque, entre 2014 e 2016, o transporte acumulou queda de 11,3% em seu PIB, mas recuperou apenas 6,6% entre 2017 e 2019. Assim, em três anos de recuperação, foi possível repor pouco mais da metade das perdas.

Outra métrica da crise ainda não superada são os empregos: o estoque de trabalhadores do setor, em dezembro de 2019, era de 2,36 milhões – 6,4% menor que o registrado ao final de 2014 (2,52 milhões). Ou seja, o setor encerrou o ano passado com 160,4 mil empregos a menos que o registrado no período pré-crise. Apesar da redução de trabalhadores e da diminuição da frota circulante, 57,3% das empresas de transporte operaram com capacidade ociosa em 2019. Soma-se a isso o constante aumento do custo operacional, identificado por 73,7% das transportadoras brasileiras no ano passado.

Foi nesse cenário de já baixa demanda, faturamento fraco, quadro de empregados reduzido, ociosidade, custos elevados e, consequentemente, baixo capital de giro que a pandemia da covid-19 atingiu o setor transportador brasileiro como um todo agora em 2020. E, com ela e seus efeitos, virtualmente acabam as possibilidades de recuperação das empresas via mecanismos de mercado.

No transporte urbano de passageiros por ônibus, a CNT identificou forte queda da atividade, em virtude da suspensão das atividades educacionais, do início da flexibilização das atividades laborais e da intensificação das restrições de movimentação em todo o país. Sem demanda e com oferta mínima dos serviços à população, o equilíbrio financeiro das empresas fica insustentável. É necessário, nesse ponto, frisar que essas empresas já sofriam com significativa redução do número de passageiros devido, dentre outros motivos, à concorrência crescente dos transportes por aplicativo. A avaliação é que já se acumulem perdas de faturamento superiores a 50%. Em situação semelhante, encontram-se as operadoras de transporte metroferroviário, que apontam queda de arrecadação de 80%.

No transporte rodoviário de passageiros, a avaliação é que elas já tiveram queda de demanda de 40% em decorrência da restrição de movimentação interestadual, que pode chegar a 60% no horizonte de 60 dias, colocando em risco a sobrevivência das empresas.

Ainda no transporte de passageiros, tem-se também a situação devastadora das empresas aéreas. Estima-se que elas acumulem perdas de até 85%, com um possível colapso do sistema aéreo nacional em função da virtual paralisação dos voos, o que causa prejuízos irrecuperáveis.

Apesar de os impactos imediatos terem sido mais percebidos no transporte de passageiros, as empresas de transporte de cargas também já percebem os reflexos da pandemia. O desaquecimento da atividade econômica devido ao fechamento de estabelecimentos comerciais e à paralisação de indústrias e da construção civil reduziu drasticamente a demanda por seus serviços. Tem-se, então, um risco duplo: desabastecimento das cidades e fechamento de transportadoras.

A situação não é melhor para as empresas de transporte aquaviário e ferroviário. Ainda que tenham sofrido menor impacto do desaquecimento da economia nacional devido ao tipo de carga que movimentam, elas são extremamente afetadas pelo desaquecimento da economia global.

Diante desse cenário, é imperativo um movimento imediato e de grande magnitude por parte do governo no sentido de dar apoio para que as empresas de transporte possam superar esse período de crise sem precedentes. Dentre as diversas ações necessárias, destacam-se:

1) a necessidade do fim das restrições de circulação dos veículos de carga;

2) a suspensão de incidência tributária durante todo o período de pandemia e de recuperação posterior;

3) a disponibilização de empréstimos para capital de giro facilitado;

4) taxas de juros reduzidas.

As duas últimas têm caráter prioritário e urgente, pois, diante da situação financeira decorrente da recessão econômica, as empresas não têm recursos para o pagamento de gastos correntes, com destaque para a folha de pagamentos. Sem essas medidas, inúmeras empresas poderão encerrar suas atividades, elevando o número de desempregados e comprometendo as atividades de transporte que são fundamentais para o funcionamento do país.

Reconhecido como ramo essencial neste momento de crise, o setor transportador clama por ações de manutenção das suas atividades e de apoio às suas operações. Escolhas difíceis terão de ser tomadas, mas reconhecer e fortalecer o transporte como garantidor da sustentabilidade da vida social e econômica vai nos permitir superar os impactos da covid-19 mais rapidamente. Afinal, o transporte move e promove o país.

Por: CNT
Fonte: Revista CNT Transporte Atual